Artigos Empório do Direito – A era da cizânia – e da burrice

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A era da cizânia – e da burrice

O artigo aborda a relação entre a percepção do aumento da burrice e a ascensão de ideologias fascistas na política brasileira. A análise se baseia em estudos que indicam um declínio na inteligência humana, explorando fatores como a influência das novas tecnologias e redes sociais na capacidade de atenção e entendimento. Os autores discutem ainda o viés de confirmação, que contribui para a irracionalidade nas opiniões, sugerindo que essa dinâmica pode estar facilitando o triunfo de discursos populistas.

Artigo no Empório do Direito

Na edição deste mês de outubro (nº. 394), a Revista Super Interessante, da Editora Abril, traz uma excelente reportagem feita pelos jornalistas Eduardo Szklarz e Bruno Garattoni, que talvez explique, ao menos em parte, a ascensão de um fascista na política brasileira. Intitulada “A Era da Burrice”, a matéria inicia fazendo uma pergunta:

_ “Você já teve a impressão de que as pessoas estão ficando mais burras?” E os jornalistas respondem: _ “Talvez você esteja certo. Estudos feitos em vários países apontam que, sim, a inteligência humana começou a cair.” Os autores buscam identificar em algumas atitudes contemporâneas o fenômeno do aumento da burrice no mundo. Por exemplo:

Discussões inúteis, intermináveis e agressivas; Gente defendendo as maiores asneiras, e se orgulhando disso; Pessoas perseguindo e ameaçando as outras; Um tsunami infinito de informações falsas; Líderes políticos imbecis.

E justificam o fenômeno arrasador: “Estudos realizados com dezenas de milhares de pessoas, em vários países, revelam algo inédito e assustador: aparentemente, a inteligência humana começou a cair.”

Citam, então, o antropólogo inglês Edward Dutton, autor de uma revisão analítica das principais pesquisas já feitas a respeito: “Há um declínio contínuo na pontuação de QI ao longo do tempo. E é um fenômeno real, não um simples desvio.”

No Brasil, nada obstante não haver dados científicos a respeito do fenômeno, “os nossos indicadores são terríveis”, segundo os autores da reportagem. Para fazerem tal afirmação, levaram em consideração um estudo realizado este ano pelo Ibope Inteligência, que revelou o fato de “29% da população adulta ser analfabeta funcional, ou seja, não consegue ler sequer um cartaz ou um bilhete.”

Como, então, explicar “a aparente proliferação de burrice mesmo entre quem foi à escola?” Uma primeira explicação, altamente questionável, é dada pelo psicólogo Michael Woodley, da Universidade de Umeã, na Suécia, segundo o qual “a capacidade cognitiva é fortemente influenciada pela genética. E as pessoas com altos níveis dela vêm tendo menos filhos.”

Ora, trata-se de uma teoria perigosíssima, pois, no passado, como lembram os autores da reportagem, “levou à eugenia, uma pseudociência que buscava o aprimoramento da raça humana por meio de reprodução seletiva e esterilização de indivíduos julgados incapazes. Esses horrores ficaram para trás e hoje ninguém proporia tentar ´melhorar` a sociedade obrigando os mais inteligentes a ter mais filhos – ou impedindo as demais pessoas de ter.”

Uma outra hipótese, esta desenvolvida, dentre outros, por Mark Bauerlein, Professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos, e autor do livro “The Dumbest Generation”, ainda não lançado no Brasil, seria a de “que o salto tecnológico dos últimos 20 anos, que transformou nosso cotidiano, possa ter começado a afetar a inteligência humana.” Segundo o Professor americano, “hoje, crianças de 7 ou 8 anos já crescem com o celular”, justamente o período da vida em que “deveriam consolidar o hábito da leitura, para adquirir vocabulário.”

Ressalvando que não são luditas, os jornalistas alertam que, efetivamente, “há indícios de que o uso de smartphones e tablets na infância já esteja causando efeitos negativos. Na Inglaterra, por exemplo, 28% das crianças da pré-escola (4 e 5 anos) não sabem se comunicar utilizando frases completas, no nível que seria normal para essa idade. Segundo educadores, isso se deve ao tempo que elas ficam na frente de TV´s, tablets e smartphones. O problema é considerado tão grave que o governo anunciou um plano para reduzir esse índice pela metade até 2028 – e o banimento de smartphones nas escolas é uma das medidas em discussão.”

Uma terceira hipótese “é que o uso intensivo das redes sociais, que são projetadas para consumo rápido e consomem boa parte do tempo, esteja corroendo nossa capacidade de prestar atenção às coisas. Você já deve ter sentido isso: parece cada vez mais difícil ler um texto, ou até mesmo ver um vídeo do You Tube, até o final.”

Ora, “se prestamos menos atenção às coisas, elas obrigatoriamente têm de ser mais simples. E esse efeito se manifesta nos campos mais distintos, da música aos pronunciamentos políticos.” (grifei de propósito e para significar!).

No campo político esse fenômeno é bastante visível. Um estudo da Universidade Carnegie Mellon, também nos Estados Unidos, “constatou que os políticos americanos falam como crianças. A pesquisa analisou o vocabulário e a sintaxe de cinco candidatos à última eleição presidencial (Donald Trump, Hillary Clinton, Ted Cruz, Marco Rubio e Bernie Sanders), e constatou que seus pronunciamentos têm o nível verbal de uma criança de 11 a 13 anos. Os pesquisadores também analisaram os discursos de ex-presidentes americanos, e encontraram um declínio constante. Abraham Lincoln se expressava no mesmo nível de um adolescente de 16 anos. Ronald Reagan, 14. Obama e Clinton, 13. Trump, 11 (o lanterna é George W. Bush, com vocabulário de criança de 10 anos).”

Evidentemente que esta constatação não significa, necessariamente – e isso seria algo por demais reducionista – que os políticos estão ficando, ao longo do tempo, burros. Não! O que ocorre, na verdade, segundo Szklarz e Garattoni, é que “eles estão sendo pragmáticos, e adaptando suas mensagens ao que seu público consegue entender – e, principalmente, estamos dispostos a ouvir. Inclusive porque esse é outro pilar da burrice moderna: viver dentro de uma bolha que confirma as próprias crenças, e nunca mudar de opinião.” Trata-se, como eles próprios concluem, de um comportamento irracional.

Aqui, os jornalistas lembram de um fenômeno muito conhecido na psicologia: “o viés de confirmação”, consistente no fato de que uma pessoa irracional, nada obstante “diante dos argumentos mais irrefutáveis”, sempre mantém “a própria opinião.” É a velha tendência humana “de abraçar informações que apoiam suas crenças, e rejeitar dados que as contradizem.”

Este fenômeno da mente humana foi estudado pelo psicólogo americano, Kevin Dunbar, da Universidade de Stanford: “Há informações demais à nossa volta, e os neurônios precisam filtrá-las. Há até uma região cerebral, o córtex pré-frontal dorsolateral, cuja função é suprimir informações que a mente considere ´indesejadas`. Tem mais: nosso cérebro libera uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer, quando recebemos informações que confirmam nossas crenças. Somos programados para não mudar de opinião. Mesmo que isso signifique acreditar em coisas que não são verdade.”

Esta coisa da irracionalidade é tão séria que há quem defenda a tese de que a “razão” não exista mesmo, ao menos como a concebemos. Neste sentido, os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber, de Harvard, no livro ainda inédito no Brasil, “The Enigma of Reason”, afirmam “que a razão é relativa. Altera-se conforme o contexto, e sua grande utilidade é construir acordos sociais – custe o que custar.”

Pois bem.

O que extrair dessa matéria? Ou o que dela concluir? Acho que ajuda a entender a ascensão fascista no Brasil. Assim, afora os verdadeiros fascistas (que comungam ou aceitam as ideias do fascista), há os burros e os irracionais. Parece-me ser assim que sucede. Desgraçadamente!

A imagem ilustrativa é da capa de Setembro/18, da Revista Superinteressante. Para acessar, clique aqui.

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