ARTIGO

O Coaf entre a inteligência e a acusação

O artigo aborda os limites constitucionais da atuação do Coaf, distinguindo sua função de inteligência financeira da atividade investigatória e acusatória. Analisa o compartilhamento e a requisição de RIFs, os riscos de fishing expedition, a necessidade de investigação formal, pertinência temática e controle judicial, além da proteção de dados financeiros sigilosos.

28 set. 2026 2 acessos
O Coaf entre a inteligência e a acusação
Publicado no Conjur
Resumo do artigo

O artigo aborda a posição constitucional do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como órgão de inteligência financeira, destacando que sua ampla capacidade de acesso e análise de dados deve ser equilibrada pela limitação de seus poderes de atuação; o princípio da separação informacional de poderes, segundo o qual quem possui amplo conhecimento não deve concentrar poderes ilimitados, aplicado à proteção contra abusos no uso de informações financeiras; as atribuições do Coaf, especialmente o recebimento, processamento e análise de dados sobre operações financeiras, comerciais e imobiliárias para identificar indícios de lavagem de dinheiro; os limites constitucionais ao compartilhamento de dados financeiros sigilosos, com distinção entre o Tema de Repercussão Geral nº 990, relativo ao compartilhamento espontâneo de informações pelo Coaf, e o Tema nº 1.404, relacionado à possibilidade de requisição direta de dados pelo Ministério Público ou pela polícia e à necessidade de investigação formal prévia; a vedação à produção de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) por encomenda e à fishing expedition, entendida como busca indiscriminada de provas sem objeto investigativo definido; a natureza sugestiva, e não acusatória ou decisória, da atuação do Coaf, que identifica anomalias e suspeitas sem declarar a ilicitude das operações; a distinção entre o juízo técnico de inteligência, atribuído ao Coaf, e o juízo jurídico de legalidade, responsabilidade penal ou administrativa, reservado às autoridades competentes; a diferença entre compartilhamento espontâneo, precedido de filtragem técnica autônoma do Coaf, e requisição direta por autoridades persecutórias, que pode direcionar ou contaminar a análise e, por isso, exigir autorização judicial; a tipologia das suspeitas interna e externa, abrangendo a ausência de suspeita prévia, a existência de suspeita externa sem análise autônoma do Coaf e a formação independente de suspeitas pelo órgão de inteligência e pelas autoridades investigativas; o caráter não vinculante dos RIFs para o Ministério Público e para o Judiciário, que devem confrontá-los com outros indícios, provas e elementos submetidos ao contraditório; o funcionamento algorítmico e aparentemente neutro do Coaf, baseado na detecção automática de movimentações atípicas, em contraste com requisições direcionadas a pessoas determinadas; os riscos de fishing expedition, descontextualização de operações financeiras e mercantilização de RIFs sem supervisão judicial; os requisitos para o fornecimento de RIFs estabelecidos no contexto do Tema nº 1.404, incluindo investigação formal prévia, fundamentação documental, identificação objetiva do investigado, pertinência temática, finalidade penal ou administrativo-sancionadora, proibição de pesca probatória, aplicação a CPIs e CPMIs e vedação de uso em procedimentos sem natureza sancionadora; a necessidade de reserva de jurisdição ou, ao menos, de controle judicial prévio ou imediato sobre a emissão e utilização dos RIFs; as dificuldades enfrentadas pelo investigado para contestar abusos quando inexiste controle judicial anterior ao acesso aos dados; a relação entre a amplitude informacional do Coaf e a ausência de poderes investigatórios, cautelares ou sancionatórios, cuja preservação justificaria sua legitimidade institucional; e a advertência final de que a instrumentalização do Coaf por requisições diretas pode transformá-lo indevidamente de órgão de inteligência em órgão de investigação ou acusação, comprometendo as garantias do Estado Constitucional.

Resumo editorial produzido pela equipe da Criminal Player. O texto integral é de autoria dos experts e está publicado no Conjur.

Tópicos do artigo

Principais pontos desenvolvidos no texto original

Principais tópicos abordados no artigo “O Coaf entre a inteligência e a acusação”, de Georges Abboud e Pierpaolo Cruz Bottini.

  • Posição constitucional do Coaf: Análise do papel do Conselho de Controle de Atividades Financeiras como órgão de inteligência responsável por receber, organizar e analisar informações financeiras suspeitas, sem exercer funções investigatórias, acusatórias ou sancionatórias.
  • Separação informacional de poderes: Aplicação da ideia de que quem possui amplo acesso a informações não deve concentrar poderes igualmente amplos de atuação, preservando o equilíbrio institucional e as garantias do Estado Constitucional.
  • Amplitude do acesso e limitação dos poderes: Discussão sobre como a extensa capacidade de coleta de dados do Coaf é legitimada justamente pela restrição de suas competências para agir diretamente sobre os cidadãos.
  • Temas de repercussão geral do STF: Distinção entre o Tema RG nº 990, relativo ao compartilhamento de informações pelo Coaf com órgãos estatais, e o Tema RG nº 1.404, relacionado à possibilidade de requisição de dados por autoridades policiais ou pelo Ministério Público.
  • Vedação à geração de RIF por encomenda: Defesa da impossibilidade de produção direcionada de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) para cidadãos que não estejam submetidos a investigação formal ou que não tenham sido identificados por alertas produzidos espontaneamente pelo Coaf.
  • Natureza espontânea do compartilhamento: Explicação de que o compartilhamento sem autorização judicial se legitima quando resulta da análise autônoma e técnica do Coaf, que filtra as informações antes de encaminhá-las às autoridades competentes.
  • Requisição direta e necessidade de controle judicial: Argumentação de que a solicitação direta de informações pelo Ministério Público ou pela polícia rompe a filtragem prévia do Coaf e deve depender de autorização judicial para proteger dados pessoais sensíveis e evitar abusos investigativos.
  • Distinção entre inteligência e juízo de legalidade: Esclarecimento de que cabe ao Coaf identificar operações anômalas ou suspeitas, enquanto a avaliação jurídica sobre a ilicitude dos fatos pertence às autoridades responsáveis pela investigação, acusação e julgamento.
  • Caráter meramente sugestivo do RIF: Demonstração de que o Relatório de Inteligência Financeira não comprova a prática de crime nem vincula o Ministério Público ou o juiz, devendo ser confrontado com outros elementos informativos e probatórios.
  • Contraditório e apreciação judicial: Ressalva de que as informações do RIF, quando obtidas licitamente, estão sujeitas ao contraditório, à análise judicial e à verificação conjunta com os demais indícios produzidos na investigação e no processo.
  • Suspeita interna e suspeita externa: Apresentação da classificação que diferencia a suspeita formada autonomamente pelo Coaf, a suspeita previamente elaborada por órgãos externos e a possibilidade de coexistência independente de ambas.
  • Fishing expedition e pesca direcionada: Análise dos riscos de utilização do Coaf para procurar indiscriminadamente novos indícios, seja sem investigação prévia, seja a partir de uma suspeita externa que conduza ou sugestione a atuação da unidade de inteligência.
  • Neutralidade algorítmica do Coaf: Discussão sobre o funcionamento baseado em padrões e algoritmos que, idealmente, permite identificar movimentações atípicas de forma geral e impessoal, sem direcionamento prévio contra indivíduos determinados.
  • Riscos da requisição individualizada: Exame de como pedidos específicos formulados por autoridades podem romper a neutralidade do sistema, estimular investigações prospectivas e permitir o uso de dados financeiros descontextualizados.
  • Requisitos para fornecimento de RIFs: Síntese dos critérios atribuídos ao fornecimento de relatórios, incluindo investigação formal prévia, justificativa documental, identificação do investigado, finalidade definida, pertinência temática e proibição de pesca probatória.
  • Aplicação a CPIs e CPMIs: Abordagem da extensão dos requisitos de controle às Comissões Parlamentares de Inquérito e às Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito.
  • Limitação da utilização dos RIFs: Defesa da vedação ao uso de relatórios para instruir procedimentos sem natureza penal ou administrativo-sancionadora, bem como da invalidação e do desentranhamento de dados obtidos irregularmente.
  • Supervisão judicial dos requisitos: Sustentação de que o Judiciário deve autorizar previamente a emissão dos RIFs ou, no mínimo, verificar o cumprimento dos requisitos antes da disponibilização dos dados às autoridades.
  • Proteção contra abusos investigativos: Argumentação de que, sem controle jurisdicional prévio, o investigado enfrenta dificuldades para demonstrar a inexistência de fundamento, necessidade ou pertinência na requisição das informações.
  • Preservação da identidade institucional do Coaf: Conclusão de que o Conselho deve permanecer como órgão de inteligência financeira, e não ser transformado em instrumento de acusação ou investigação sem as garantias constitucionais.
Leia o artigo completo no ConjurTexto integral no site da publicação
Acessar artigo

Sobre os experts

Professores e especialistas que conduziram este conteúdo

Avatar de Georges Abboud
Georges AbboudMestre, doutor e livre-docente em Direito pela PUC-SP, advogado, professor concursado em processo civil da PUC-SP e de direito processual e constitucional do Mestrado e Doutorado do IDP - Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa no Distrito Federal. Possui mais de uma década de experiência na advocacia e consultoria em litígios estratégicos e de alta complexidade em direito público e privado. É consultor jurídico, parecerista e \"expert witness\" em direito material e processual em litígios internacionais. Também é autor de mais de uma dezena de livros sobre direito, dentre as quais se destacam “Direito Constitucional Pós-Moderno”, “Ativismo Judicial”, “Pareceres” (atualmente com 3 volumes abrangendo direito privado e público) e “Processo Constitucional Brasileiro”, esse já em sua quinta edição. Membro da comissão de juristas da Câmara dos Deputados para sistematização da legislação sobre o processo constitucional brasileiro. Membro da comissão de juristas do Senado Federal para desenvolvimento do marco normativo da Inteligência Artificial. Atualmente, figura como membro do Conselho Jurídico da FIESP.

Explore

Indicações relacionadas a este conteúdo

Precisa de ajuda?
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp para dúvidas sobre este conteúdo.

Não perca este conteúdo

Assine a Criminal Player e tenha acesso imediato a esta aula, mais de 4.900 conteúdos, ferramentas de IA e a maior comunidade de advocacia criminal do Brasil.

Ver planos