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Artigos Conjur – Mello e Abboud: O PL das Fake News e a imunidade parlamentar

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Mello e Abboud: O PL das Fake News e a imunidade parlamentar

O artigo aborda a complexidade das novas tecnologias e a ascensão das fake news, destacando a inadequação da regulação atual frente a esse fenômeno. Analisa o dever de accountability imposto pelo PL das Fake News, e critica a inclusão da imunidade parlamentar sem ressalvas, que poderia isentar parlamentares de responsabilidade por disseminação de informações falsas. Os autores defendem a necessidade de um modelo híbrido de regulação que possibilite a autorregulação nas plataformas digitais, g...

Georges Abboud
25 jan. 2022 13 acessos
Mello e Abboud: O PL das Fake News e a imunidade parlamentar

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O artigo aborda a complexidade das novas tecnologias e a ascensão das fake news, destacando a inadequação da regulação atual frente a esse fenômeno. Analisa o dever de accountability imposto pelo PL das Fake News, e critica a inclusão da imunidade parlamentar sem ressalvas, que poderia isentar parlamentares de responsabilidade por disseminação de informações falsas. Os autores defendem a necessidade de um modelo híbrido de regulação que possibilite a autorregulação nas plataformas digitais, garantindo a remoção rápida de conteúdos fraudulentos para preservar a democracia.

Publicado no Conjur

A complexidade das novas tecnologias — como as plataformas digitais — e a agilidade com que as informações transitam livremente proporcionam aumento da pluralidade de opiniões, mas também impactam a qualidade das comunicações, levando à consolidação de um mercado de fake news. Simultaneamente, Judiciário e Legislativo são confrontados com a incapacidade de pronta resposta do modelo tradicional de regulação, baseado na dicotomia lei/decisão. Há uma defasagem que aponta para a necessidade de modelos de regulação híbrida, somando-se a regulação tradicional a mecanismos claros e previsíveis de autorregulação dentro das plataformas sociais.

Caracterizando como de “interesse público” as contas mantidas por agentes políticos e entidades da Administração Pública, o PL impõe-lhes, em vários momentos, o dever de accountability. Veda, por exemplo, a destinação de verbas públicas em prol de discursos discriminatórios ou do cometimento de crimes contra o Estado democrático de Direito (artigo 25 I e II), e impõe que as comunicações dessas figuras estejam sujeitas à mesma obrigação de transparência que recai, no modelo tradicional, sobre as comunicações oficiais (artigo 26).

Nesse contexto de obrigações legítimas, o tratamento preconizado à imunidade parlamentar nas plataformas (artigo 22, §5º) é incompreensível e inconstitucional. Supor que determinada manifestação parlamentar deva ser mantida em alguma plataforma, pela presunção de que esteja protegida pela imunidade parlamentar, inviabiliza a autorregulação e dá tratamento diferenciado a uma classe de usuários que estaria liberada para fake news. Em suma, corre-se o risco de conferir às fake news status de prerrogativa parlamentar, impedindo a sua exclusão das redes pela autorregulação das plataformas, que é a via mais rápida.

A inclusão do termo “imunidade parlamentar”, sem ressalvas, ainda ignora a jurisprudência do STF sobre os próprios limites da imunidade, como na decisão que viabilizou a ação penal contra o então parlamentar Jair Bolsonaro, por incitação ao crime de estupro e por prática do crime de injúria (inquérito 3932; 1ª T./STF; 21/6/2016).

Portanto, se a imunidade parlamentar não pode ser subterfúgio para incitação ao crime e ao discurso de ódio, evidente que não pode a sociedade ficar exposta às fake news tão somente porque parlamentares se utilizaram de plataformas para propagá-las. Afinal, no ambiente digital, a autorregulação é prioritária, de modo que fake news que, por exemplo, coloquem a vida de pessoas em risco (desinformação sobre vacinas) ou desacreditem instituições democráticas (desinformação sobre voto eletrônico) devem ser passíveis de controle e remoção imediatos. Não há, a despeito de serem praticadas por parlamentares, ou de resultarem de uma compreensão enviesada da imunidade parlamentar, qualquer justificativa para impedir os fundamentais mecanismos de controle de fake news.

A modificação, como proposta, sugere caráter absoluto à imunidade parlamentar que, embora essencial à democracia, deve ser vista dentro de um espectro maior de valores e direitos fundamentais protegidos pela Constituição.

Sobre os experts

Professores e especialistas que conduziram este conteúdo

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Georges AbboudMestre, doutor e livre-docente em Direito pela PUC-SP, advogado, professor concursado em processo civil da PUC-SP e de direito processual e constitucional do Mestrado e Doutorado do IDP - Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa no Distrito Federal. Possui mais de uma década de experiência na advocacia e consultoria em litígios estratégicos e de alta complexidade em direito público e privado. É consultor jurídico, parecerista e \"expert witness\" em direito material e processual em litígios internacionais. Também é autor de mais de uma dezena de livros sobre direito, dentre as quais se destacam “Direito Constitucional Pós-Moderno”, “Ativismo Judicial”, “Pareceres” (atualmente com 3 volumes abrangendo direito privado e público) e “Processo Constitucional Brasileiro”, esse já em sua quinta edição. Membro da comissão de juristas da Câmara dos Deputados para sistematização da legislação sobre o processo constitucional brasileiro. Membro da comissão de juristas do Senado Federal para desenvolvimento do marco normativo da Inteligência Artificial. Atualmente, figura como membro do Conselho Jurídico da FIESP.

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