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Inquérito midiático: quando o amadorismo defensivo turva a visão sobre a imprensa

O artigo aborda a complexa relação entre a defesa jurídica e a mídia em casos judiciais de alta visibilidade, destacando que muitas vezes a narrativa da imprensa pode enviesar a realidade dos fatos. Os autores enfatizam a importância de uma estratégia bem estruturada por parte dos defensores, que devem reconhecer a necessidade de especialistas em comunicação para gerenciar a crise de imagem e evitar erros amadores na interação com a mídia. A falta de planejamento pode levar a consequências prejudiciais, tornando essencial a preparação e o entendimento do funcionamento da mídia antes de enfrentar tais situações.

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Esse é um caso de ficção totalmente baseado na realidade formulado pelos autores: [a] Rita: que há mais de 12 anos gerencia crises de inquéritos e júris midiáticos; e, (b) Alexandre que está na magistratura estadual há mais de 26 anos.

É comum e recorrente que um caso ocorrido no interior do Brasil vire notícia nacional em poucas horas. Advogados e jornalistas correm por rotas e com velocidades diferentes. Enquanto a defesa se debruça nos trâmites jurídicos, buscando se “inteirar” sobre o caso penal, a imprensa narra a sua versão pelos olhos, ouvidos e offs dos repórteres que cobrem o caso, em alguns casos sem conferir as fontes de modo adequado.

Nem sempre a história mostrada na imprensa e o processo têm os mesmos dados, fatos e articulação. Acaba prevalecendo o jargão: “quem conta primeiro é o dono da história” (cria a narrativa, define os personagens, o enredo, a sequência e a motivação subjacente).

Quem começa contando essa história normalmente é quem investiga. A narrativa midiática depende exclusivamente de documentos e fontes, no entanto, raramente a primeira fonte será o acusado ou a sua defesa, não raro, fontes indiretas, “por ouvir dizer”, enviesadas e/ou tendenciosas.

O inquérito midiático pode ser comparado, metaforicamente, ao cenário de uma “guerra” ou de uma “valsa”. A defesa precisa de comando, com estratégias de curto, médio e longo prazos, estabelecidas a partir dos “objetivos” pretendidos, por meio de táticas materializadas por plano de ação de nível operação.

Por outro lado, a defesa precisa entender que não se dança sozinho e, no caso da valsa, se você não conduz, será conduzido. Logo, a atuação profissional exige a demonstração o prévio planejamento de gerenciamento de incidentes e de segurança na condução do caso penal, pouco adiantando a convocação de uma reunião às pressas se o defensor não dispõe de competências mínimas sobre gestão de incidentes e do concreto funcionamento do intrincado relacionamento com a mídia.

Por exemplo, quando ocorre um problema com o contrato que a cliente “achou” no “google”, dizemos que ele deveria ter consultado antes um profissional: advogado. A razão é a de reduzir a margem de erro e obter a melhor execução possível.

Então, por qual motivo um jornalista não é contratado para gerenciar os planos de relacionamento e/ou de contingenciamento de incidentes? Talvez o caso seja mais simples, não exista orçamento ou o defensor “acha” que um modelo na web é suficiente. No entanto, para um defensor amador, meia palavra basta… ao desastre.

Aury Lopes Jr. diz que muitas vezes falta “humildade” para reconhecer os limites próprios da atividade defensiva, exigindo coragem para solicitar ajuda. Aliás, sempre que um conhecimento técnico é exigido na solução de um caso penal, convoca-se o especialista (perito ou expert).

No entanto, prevalece a ingenuidade de que a função do jornalista é acessória e/ou de menor importância, demonstrando arrogância ou desconhecimento sobre a importância da gestão das relações com a mídia que começa muito antes de o cliente procurar o defensor.

No YouTube, pode-se conferir o festival de amadorismo das entrevistas concedidas por defensores que podem ser classificadas dentre outros gêneros, no drama ou na comédia, porque raramente estão alinhadas a uma estratégia maior.

Quem não sabe o que dizer, em geral, diz bobagens. A mais óbvia e amadora é dizer que “o cliente é inocente e provará no decorrer do processo”. Primeiro: se não passa pela cabeça de ninguém que o defensor irá dizer que o cliente é culpado, o conteúdo da mensagem é irrelevante e redundante, diria Claude Shannon (informação é novidade).

Segundo: o ônus da prova é de quem acusa, motivo pelo qual somente haverá, por exceção, ônus defensivo na hipótese de defesa afirmativa, p.ex., álibi. Existem declarações mais assertivas e adequadas que podem ser aprendidas. Mas demandam preparação e aquisição de competências.

A falta de estratégia induz ao erro de acreditar que a imprensa é sinônimo de problema. No entanto, se a participação da imprensa está fora do poder de gerência do defensor, saber operacionalizar o relacionamento e gerenciar a crise de imagem associada ao cliente demonstra comprometimento com a visão 360º sobre o caso penal.

Até porque, bem delineada, pode-se utilizar a mídia a favor. Uma equipe qualificada amplia as alternativas, evita caminhos arriscados e/ou comprometedores.

Ademais, “não existe advogado midiático”, mas sim “casos midiáticos”. No jornalismo aprendemos que nada e nem ninguém é maior que a notícia que engaja. No mundo digital, a que induz ao clique, à indignação, à projeção e ao “dever” de compartilhar, de mostrar aparente “ação” (não ficar inerte), ainda que não se saiba a credibilidade das fontes.

Os linchamentos online estão na moda. Se o tempo da mídia é diferente do tempo do devido processo legal, então é preciso entender o funcionamento das notícias que opera por meio do “furo de reportagem”, dos “trends” e do que engaja. Rubens Casara denomina o fenômeno de “Processo Penal do Espetáculo”.

Por mais que existam domínios distintos (mídia e defesa), quando se cruzam no contexto de um caso penal, a estratégia mais inteligente que a defesa pode tomar é assumir que precisa de ajuda para entrar nessa batalha repleta de regras implícitas, informações contraditórias e muitos jogos de poder.

Se “gato escaldado tem medo de água fria”, quem já sofreu na pele o efeito negativo da ausência de planejamento reconhece a importância de profissionais auxiliares.

Ainda que não exista orçamento para contratação de jornalista dedicado, pelo menos entender o funcionamento do terreno midiático é uma vantagem competitiva.

O problema é quem sequer reconhece a limitação e, em geral, compromete as possibilidades defensivas do cliente por culpa (desconhecimento ou arrogância). O planejamento e o gerenciamento de mídia incorporaram-se às atividades defensivas para quem já se deu conta do risco associado à reputação.

Leve consigo: “por favor, não diga que seu cliente é inocente”. Além de óbvio e redundante, indica amadorismo na gestão de mídia. Não espere o caso chegar para saber o que fazer. Antecipe-se para poder mensurar a relevância da participação de auxiliar jornalista ou, pelo menos, compreender o funcionamento das relações midiáticas.

Esperamos que você já tenha as competências para lidar com a mídia. Se não as tiver, prepare-se antes. Melhora o desempenho e reduz o risco de erros evitáveis. Mas procure profissionais qualificados porque, aqui, também vale o ditado: “o barato sai caro”.

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