Como usar IA para analisar casos com milhares de páginas
Guia prático de investigação defensiva com agentes de IA: preparação, cinco receitas de uso e as cautelas que protegem você e o seu cliente.
Este guia é um presente da Criminal Player para os participantes do I Seminário Catarinense de Investigação Defensiva da OAB/SC.
Quem trabalha com investigação defensiva conhece o problema: o material chega em volume que nenhum ser humano lê. Extração de celular com dezenas de milhares de páginas, RIF do COAF, planilhas de afastamento de sigilo bancário, horas de mídia, depoimentos transcritos. As ferramentas forenses profissionais que processam isso custam dezenas de milhares de reais por ano. E os chats de IA comuns não dão conta: têm limite de upload, perdem o fio em documentos longos e criam desconforto legítimo de sigilo.
Existe hoje uma terceira via, ainda pouco conhecida na advocacia: os agentes de IA que trabalham direto nos arquivos do seu computador. A ferramenta mais madura dessa geração é o Claude Code, da Anthropic. Apesar do nome, ela não serve só para programadores: serve para qualquer trabalho que envolva ler, cruzar e organizar grandes volumes de arquivos. É exatamente o trabalho da investigação defensiva.
Este guia mostra, em linguagem de advogado, como começar: o que é a ferramenta, como prepará-la, cinco receitas de uso aplicadas à defesa criminal e, tão importante quanto, as cautelas de sigilo, veracidade e cadeia de custódia que protegem você e o seu cliente.
1. O que é um agente de IA (e por que é diferente do chat)
Um chat de IA responde ao que você cola na janela. Um agente recebe uma tarefa e trabalha por conta própria até concluí-la: abre arquivos, lê, anota, escreve pequenos programas descartáveis para processar planilhas gigantes, confere o resultado e monta um relatório. Você supervisiona, corrige o rumo e valida.
| Chat comum | Agente (ex: Claude Code) | |
|---|---|---|
| Volume | Limite de upload; engasga em PDFs longos | Trabalha na pasta do caso, arquivo por arquivo, sem upload |
| Método | Uma resposta por vez | Divide a tarefa em etapas e executa |
| Rastreabilidade | Difícil saber de onde veio a afirmação | Pode (e deve) ser instruído a citar arquivo e página |
| Resultado | Texto na tela | Relatórios, tabelas e cronologias salvos como arquivos seus |
O agente roda no seu computador e enxerga apenas a pasta que você indicar. Os trechos que ele precisa ler são enviados para o modelo de IA na nuvem processar (falamos das implicações disso na seção de cautelas), mas não há upload manual de nada e o produto do trabalho fica na sua máquina.
2. Preparação mínima
- Conta: assinatura paga da Anthropic (plano Pro dá conta do uso individual; planos superiores para uso intenso). Evite fazer trabalho de cliente em contas gratuitas: leia a seção de cautelas antes do primeiro caso real.
- Instalação: o Claude Code tem aplicativo para Windows e Mac e versão de linha de comando. Siga o passo a passo oficial em claude.com/claude-code. Não exige conhecimento técnico além de instalar um programa.
- A pasta do caso: crie uma pasta por caso, com subpastas simples (por exemplo: 01-autos, 02-extracao-celular, 03-financeiro, 04-depoimentos, 05-analises). O agente trabalha melhor quando o material está minimamente organizado, e você também.
- Trabalhe sobre cópias: a pasta do caso deve conter cópias de trabalho, nunca a mídia original recebida. Detalhes na cautela 3.
Uma nota de expectativa: a primeira sessão é estranha. Você escreve em português comum, como escreveria para um estagiário muito rápido e muito literal. Quanto mais específica a instrução, melhor o resultado.
3. Cinco receitas de uso
Cada receita traz a situação, o pedido (que você pode adaptar e colar) e o ponto de atenção.
Receita 1: o inventário do caso
Situação: Chegou o material. Antes de qualquer análise, você precisa saber o que tem.
Examine todos os arquivos desta pasta e me entregue um inventário em tabela: nome do arquivo, tipo (laudo, extração, extrato, depoimento, mídia), período que cobre, pessoas citadas com mais frequência e uma linha de resumo. Não interprete nada ainda: só descreva. Salve como 05-analises/inventario.md.
Por que começar por aqui: o inventário revela lacunas (cadê o RIF citado na denúncia?), orienta as próximas perguntas e custa minutos. É também o teste perfeito para você calibrar a ferramenta sem risco: descrever é mais seguro que concluir.
Receita 2: cronologia de mensagens
Situação: Extração de WhatsApp com milhares de conversas; interessa o diálogo entre duas pessoas em um período determinado.
Na pasta 02-extracao-celular, localize todas as mensagens trocadas entre [nome A] e [nome B] entre [data] e [data]. Monte uma cronologia em tabela: data e hora, quem enviou, conteúdo resumido, e a referência exata (arquivo e página ou linha) de cada mensagem. Sinalize intervalos de silêncio maiores que 48 horas. Salve como 05-analises/cronologia-A-B.md.
Ponto de atenção: peça sempre a referência exata e confira por amostragem antes de usar. Uma cronologia com fonte em cada linha vira anexo de peça; sem fonte, vira risco.
Receita 3: cruzamento financeiro
Situação: A denúncia narra repasses; você tem extratos bancários e o RIF. Quer saber se a narrativa acusatória fecha com os números.
Compare os extratos da pasta 03-financeiro com as operações descritas no RIF e com os repasses narrados na denúncia (arquivo 01-autos/denuncia.pdf). Monte três listas: (1) operações da denúncia confirmadas nos extratos, com valor, data e referência; (2) operações narradas que NÃO encontram correspondência nos extratos; (3) movimentações relevantes dos extratos que a denúncia não menciona. Cite a fonte de cada item.
Por que é poderoso: a lista 2 é tese de defesa em estado bruto. Esse cruzamento manual consome dias de estagiário; aqui sai em uma sessão, com a ressalva de sempre: conferir na fonte antes de afirmar em juízo.
Receita 4: contradições entre depoimentos
Situação: Várias oitivas da mesma testemunha (delegacia, MP, juízo) ou versões de testemunhas diferentes sobre o mesmo fato.
Leia os depoimentos da pasta 04-depoimentos. Para cada fato relevante (horário, local, quem estava presente, o que foi visto), monte um quadro comparativo do que cada depoente disse em cada oportunidade, com citação literal e referência. Destaque as divergências entre versões do mesmo depoente e entre depoentes.
Ponto de atenção: o agente encontra as divergências; avaliar se são contradição relevante ou imprecisão natural da memória é juízo seu. A ferramenta prepara o terreno da inquirição, não a estratégia.
Receita 5: quesitos a partir do laudo
Situação: Laudo pericial técnico (extração, balística, contábil) e você precisa preparar quesitos complementares ou identificar fragilidades metodológicas.
Leia o laudo 01-autos/laudo-extracao.pdf. Liste: (1) o método declarado pelo perito e as etapas que o laudo NÃO documenta; (2) afirmações conclusivas que não vêm acompanhadas do dado bruto correspondente; (3) uma proposta de 10 quesitos complementares explorando esses pontos, em linguagem formal. Indique a página do laudo que motivou cada quesito.
Ponto de atenção: os quesitos saem como rascunho de trabalho. Passe pelo seu filtro técnico e, se o caso justificar, pelo do seu assistente técnico.
4. As três cautelas que não são opcionais
Cautela 1: sigilo profissional e proteção de dados
O agente roda na sua máquina, mas os trechos que ele lê são processados pelo modelo de IA na nuvem. Isso impõe três regras:
- Use conta paga e leia a política de dados. Nos planos comerciais da Anthropic, os dados enviados não são usados para treinar os modelos por padrão. Confirme essa configuração na sua conta e guarde um print da política vigente no dossiê do caso.
- Minimize o que é sensível. Quando a análise não depende da identidade real (ex: mapear padrão de transações), substitua nomes por códigos antes de processar. O próprio agente pode fazer a substituição em uma cópia dos arquivos, como primeira tarefa.
- Informe-se sobre o seu dever. LGPD e sigilo profissional continuam valendo. A decisão de processar dados de terceiros em ferramenta de nuvem é sua, caso a caso, como já é ao usar email, nuvem de arquivos ou sistema de gestão de escritório.
Cautela 2: alucinação (a IA erra com confiança)
Modelos de IA às vezes afirmam coisas que não estão nos documentos, com fluência de quem tem certeza. O antídoto é procedimental, não tecnológico:
- Toda afirmação com fonte. Inclua em todo pedido: "cite arquivo e página de cada afirmação". Resposta sem fonte é resposta que não existe.
- Confira por amostragem sempre, e integralmente antes de peticionar. O agente reduz o trabalho de encontrar; o trabalho de verificar continua sendo do advogado.
- Desconfie especialmente das sínteses. Erros se escondem menos na transcrição literal e mais no resumo. Peça o literal quando a precisão importar.
Cautela 3: cadeia de custódia
A análise assistida por IA é trabalho interno da defesa. Para que ela nunca contamine a prova:
- Originais intactos. A mídia recebida (HD, pendrive, link pericial) é preservada como chegou. O agente só toca cópias de trabalho.
- Registre o hash. Calcule o hash dos arquivos originais ao recebê-los e guarde o registro. O próprio agente calcula e documenta isso para você (peça: "calcule o hash SHA-256 de cada arquivo da pasta de originais e salve a lista com data e hora"). Ou use o Kit de Cadeia de Custódia da Criminal Player, que calcula e gera o relatório direto no navegador.
- Perícia é do perito. O agente apoia a estratégia e a compreensão do material. Quando a validade técnica da prova estiver em jogo, o caminho é assistente técnico e quesitos, não um relatório de IA anexado como se laudo fosse.
O kit que acompanha este guia
As cautelas acima pedem hash, preservação formal e método em fontes abertas. Liberamos por tempo limitado, para o público do evento, as ferramentas que fazem exatamente isso, direto no navegador:
O kit completo está em criminalplayer.com.br/ferramentas-investigacao-defensiva.
5. Glossário de bolso
- Agente de IA: IA que executa tarefas em etapas por conta própria, sob sua supervisão, em vez de apenas responder mensagens.
- Claude Code: agente da Anthropic que trabalha sobre pastas e arquivos do computador do usuário. Nasceu para programadores, hoje é usado para análise documental em geral.
- Modelo / LLM: o motor de linguagem que lê e escreve. O agente é o operário; o modelo é o cérebro que ele consulta.
- Prompt: a instrução escrita que você dá. Neste guia, os "pedidos".
- Hash: impressão digital matemática de um arquivo. Se um byte muda, o hash muda; por isso prova integridade.
- RIF: Relatório de Inteligência Financeira do COAF.
- OSINT: investigação em fontes abertas (registros públicos, redes, imprensa).
Para continuar
Este guia é a porta de entrada. Na Criminal Player, o tema segue vivo o ano inteiro: lives com quem pratica investigação defensiva no Brasil, a IA Gabriel Bulhões treinada na obra da maior referência do tema, jurisprudência criminal do STF e do STJ organizada para a defesa e uma comunidade que discute casos e métodos toda semana.
Este material é informativo e não substitui a análise jurídica do caso concreto nem a perícia técnica formal.