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Ainda sobre o machismo – por fernanda mambrini rudolfo

O artigo aborda a experiência de Fernanda Mambrini Rudolfo em um ambiente profissional marcado por agressões e ofensas de gênero, que refletem o machismo enraizado na sociedade. A autora destaca como a desvalorização e a violência contra mulheres no trabalho estão ligadas a questões de gênero, enfatizando a importância de reconhecer e verbalizar essas violências para promover mudança. Ela clama pela necessidade de dar voz às mulheres que enfrentam tais situações e pela construção de um ambien...

Fernanda Mambrini Rudolfo
18 jun. 2017 9 acessos
Ainda sobre o machismo – por fernanda mambrini rudolfo

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O artigo aborda a experiência de Fernanda Mambrini Rudolfo em um ambiente profissional marcado por agressões e ofensas de gênero, que refletem o machismo enraizado na sociedade. A autora destaca como a desvalorização e a violência contra mulheres no trabalho estão ligadas a questões de gênero, enfatizando a importância de reconhecer e verbalizar essas violências para promover mudança. Ela clama pela necessidade de dar voz às mulheres que enfrentam tais situações e pela construção de um ambiente mais respeitoso e igualitário.

Publicado no Empório do Direito

Recentemente travei em plenário uma discussão que deveria ser estritamente jurídica, limitada ao processo que estava sendo julgado, mas que resultou em ofensas pessoais a mim. Fui agressivamente chamada de “metida”, “filhinha de mamãe”, acusada de estar “trocando minhas fraldas” enquanto o autor dessas preciosas colocações supostamente já realizaria plenários.

Afora o descabimento de pessoalizar embates que deveriam se restringir aos aspectos fáticos e jurídicos do caso em julgamento, questiono-me em que medida o fato de eu ser mulher contribuiu para essas agressões. E concluo que caracterizou um fator relevante, pois não consigo imaginar as mesmas cenas se passando caso eu fosse um homem.

Para todos os efeitos, afasto desde já qualquer possibilidade de ser mero “mimimi”, pois não se trata de pretender vincular qualquer violação de direitos a questões de gênero, mas de constatar o que muitas vezes, por estarmos habituados à sociedade androcêntrica, patriarcal e misógina em que vivemos, deixamos de reconhecer. Muitas frequentes violências estão diretamente ligadas a questões de gênero, e precisamos verbalizar isso de modo a promover o seu combate.

No ambiente profissional, a mulher ainda é vista com ressalvas. Não se pode ignorar seu ainda reduzido espaço em cargos de chefia[1], as diferenças salariais[2] (que se mostram ainda mais significativas quando se trata de cargos de chefia[3]), bem como as interrupções numericamente superiores às das falas de homens[4]. Tudo isso reflete o machismo que pauta as relações sociais.

É inegável que, em um contexto como esse, as atitudes em relação a homens e mulheres, especificamente no que diz respeito ao exercício profissional, sejam diferentes. A pretensa superioridade com que agem os homens não precisa de agressões tão explícitas quanto as que sofri para que seja reconhecida. É fácil vislumbrar várias pequenas violências no dia-a-dia das mulheres trabalhadoras. O mais difícil é que se reconheça a ligação que tais violências têm com a questão de gênero, frequentemente negada pelos agressores e por desavisados.

Justamente por isso precisamos falar, não ignorar tais atos machistas, esdrúxulos e inadmissíveis. Precisamos dar voz a todas que sofrem quaisquer espécies de violência baseada no gênero (patrimonial, sexual, física, moral ou psicológica, por vezes até mesmo institucional), reconhecendo o caráter machista das agressões.

Reconhecer a violência, especificamente no ambiente de trabalho, é difícil para a grande maioria das mulheres. Não só porque somos socialmente doutrinadas a ignorar esse problema, mas porque não queremos – já, em regra, extremamente infantilizadas e desvalorizadas – ser vistas como ainda mais fracas ou, pior, como “reclamonas”. No entanto, essa identificação é o primeiro passo do único caminho capaz de atingir uma mudança de comportamento.

Por isso, uso este espaço para reconhecer publicamente que fui – mais uma vez – vítima de violência de gênero no ambiente profissional. Infelizmente, sei que não terá sido a última vez, mas há de chegar o dia em que nossa voz será efetivamente ouvida e respeitada.

Notas e Referências:

[1] http://www.ebc.com.br/cidadania/2015/01/apenas-5-de-cargos-de-chefia-e-ceo-de-empresas-sao-ocupados-por-mulheres

http://www.geledes.org.br/mulheres-estao-em-apenas-37-dos-cargos-de-chefia-nas-empresas/#gs.gEW55Tc

[2] http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/mulheres-ganham-menos-do-que-os-homens-em-todos-os-cargos-diz-pesquisa.ghtml

[3] http://www.geledes.org.br/mulheres-estao-em-apenas-37-dos-cargos-de-chefia-nas-empresas/#gs.gEW55Tc

[4] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39161312

http://exame.abril.com.br/carreira/como-a-violencia-verbal-afeta-as-mulheres-no-trabalho/

Imagem Ilustrativa do Post: secret spell // Foto de: Francesca Dioni // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/emaleth/1365858166

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode

Sobre os experts

Professores e especialistas que conduziram este conteúdo

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Fernanda Mambrini RudolfoDefensora Pública do Estado de Santa Catarina desde 2013, com atuação especialmente junto ao Tribunal do Júri. Bacharela, Mestra e Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora Científica do Centro de Estudos, Capacitação e Aperfeiçoamento da Defensoria Pública.

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