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O Pacheco do presente precisa ouvir o Pacheco do passado

O artigo aborda a ineficácia da criminalização do consumo de drogas, destacando que essa política não reduz a oferta, mas tem impactos sociais e orçamentários significativos, especialmente sobre jovens, negros e pobres. Com dados alarmantes sobre o encarceramento e gastos públicos, os autores criticam propostas legislativas recentes que buscam endurecer ainda mais as penas, apontando a contradição entre o passado e o presente do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que antes defendia uma ab...

Cristiano Avila Maronna
12 abr. 2024 11 acessos
O Pacheco do presente precisa ouvir o Pacheco do passado

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O artigo aborda a ineficácia da criminalização do consumo de drogas, destacando que essa política não reduz a oferta, mas tem impactos sociais e orçamentários significativos, especialmente sobre jovens, negros e pobres. Com dados alarmantes sobre o encarceramento e gastos públicos, os autores criticam propostas legislativas recentes que buscam endurecer ainda mais as penas, apontando a contradição entre o passado e o presente do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que antes defendia uma abordagem mais crítica sobre as consequências da repressão penal.

Publicado no Conjur

Não há lei penal que traga consequências mais negativas do que a que criminaliza o consumo individual e privado de drogas. A iniciativa é um fracasso absoluto, pois as drogas nunca foram tão baratas e disponíveis como hoje, e — segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime — o grau de pureza das substâncias ilícitas consumidas também aumentou. Fato é que vivemos uma proibição de direito, mas uma legalização de fato. Nenhuma pessoa interessada em obter drogas terá a menor dificuldade para encontrá-las.

Mas se a criminalização das drogas não teve qualquer efeito positivo sobre a oferta e a demanda dessas substâncias, há outros efeitos concretos na Justiça Criminal, tendo em vista que aproximadamente 30% dos mais de 644 mil presos no país estão na cadeia por crimes ligados a drogas. Pior, pesquisa recente do Ministério da Justiça e do Ipea demonstram que negros são 68% dos réus nos processos da Lei de Drogas, dos quais 67% não chegaram ao ensino médio.

Uma disputa vulgar

Esses dados deixam muito claro que a lei não atinge o comércio e o consumo de drogas, mas impacta a vida de milhares de jovens, negros, pobres e com baixa escolaridade, que muitas vezes encontram no tráfico uma possibilidade de obter alguma renda. Pouco se fala também da pressão sobre o orçamento do aparato repressor que sustenta essa criminalização.

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado

Pesquisa do CNJ de 2021 estima em R$ 1,8 mil o custo médio por preso no Brasil e estudo do Justa, com dados de 12 estados, mostra um gasto de mais de R$ 12 bilhões no sistema prisional, ultrapassando investimentos em áreas fundamentais como cultura e habitação.

Mesmo assim, o Senado, liderado pelo próprio presidente Rodrigo Pacheco, inaugurou uma disputa vulgar com o STF, que há nove anos julga um recurso especial sobre a constitucionalidade da lei penal que criminaliza a posse para consumo pessoal de drogas.

No ano passado, 31 senadores apresentaram uma proposta de emenda constitucional para a criminalização do consumo de drogas, na contramão do que vem ocorrendo no mundo, onde cada vez mais países reconhecem o fracasso absoluto da guerra às drogas e buscam por novas políticas para proteger a saúde de usuários e da sociedade.

Para além do disparate da proposta, chama a atenção a absoluta falta de debate sobre os custos sociais e orçamentários desta alteração.

Pacheco: passado e presente

Somente neste último mês, duas propostas que avançaram no Congresso terão um imenso impacto na Justiça Criminal e na administração penitenciária, aumentando ainda mais o número de pessoas encarceradas.

Além da PEC das Drogas, também foi aprovado um projeto que basicamente extingue o regime semiaberto na execução da pena, sob pretexto de limitar as saídas temporárias de presos. É surpreendente que parlamentares tão preocupados com a responsabilidade fiscal, alinhados aos interesses do mercado financeiro e críticos contundentes do déficit público, não tenham a menor preocupação com gastos públicos quando se trata de endurecer a repressão penal.

Já existe na Câmara dos Deputados projeto que busca obrigar legisladores a produzirem estudos de impacto orçamentário e social quando da alteração da lei penal. O PL tem origem nas 16 propostas legislativas contra o encarceramento em massa apresentadas pelo IBCCrim e outras organizações da sociedade civil em 2017. Foi relatado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara pelo então deputado Rodrigo Pacheco, que votou pela aprovação da proposta.

Em seu relatório, o Pacheco do passado defende o exato oposto do Pacheco do presente. Em suas próprias palavras, é preciso combater “uma legislação que apenas atende a clamores sociais por maximização do sistema punitivo, sem a devida problematização de suas consequências orçamentárias e sociais, que podem ser ainda mais gravosas à paz social”.

Estimativa produzida pelo Fiocruz (3º Lenad) indica que 9,9% dos brasileiros usaram drogas ilegais ao menos uma vez na vida, 3,2% no último ano, 1,7% nos últimos dias. Não é possível que nossos legisladores realmente acreditem que devemos botar na cadeia toda essa gente. E ainda que acreditem, falta explicar como vamos pagar por isso.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão e aparentemente também será o último a regulamentar o mercado de drogas postas na ilegalidade. Considerando que ainda são negros os que sofrem os impactos mais negativos da criminalização, não é exagero dizer que a guerra às drogas é continuação da infâmia escravagista. É hora de aboli-la, de uma vez por todas.

* artigo originalmente publicado na edição do Correio Braziliense de 12/4/2024

Sobre os experts

Professores e especialistas que conduziram este conteúdo

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Cristiano Avila MaronnaAdvogado. Mestre e doutor em direito penal pela USP. Autor de Lei de Drogas interpretada na perspectiva da liberdade (Contracorrente, 2022). Diretor da Plataforma Justa. Membro da Rede Reforma e do Repensando a Guerra às Drogas. Representante da OABSP no Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas de São Paulo - Comuda. Ex Conselheiro Seccional da OABSP. Ex Presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais IBCCRIM. Ex Secretário Executivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas PBPD.

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